Dos palcos internacionais à projetos sociais, a Companhia Ritmo de Camobi transforma trajetórias por meio da dança.
Os primeiros passos
O que poderia ter sido apenas uma atividade escolar de educação física, para Jéssica Loss, acabou se tornando o início de uma trajetória dedicada à dança e à educação. Aos 10 anos, ainda no sexto ano da Escola Antônio Gonçalves do Amaral, em Santa Maria, Jéssica recebeu a tarefa de ministrar uma aula para turmas mais novas. Com experiências anteriores em projetos sociais de dança, escolheu o movimento como tema. “Eu gostei muito de desenvolver aulas de dança com as alunas, então perguntei para minha professora se teria como seguir com o projeto, e ela disse que sim”, relembra.
Durante sete anos, a quadra da escola municipal foi a sala de ensaios do grupo. Jéssica ministrava as aulas de forma voluntária, levando as turmas para mostras e festivais não competitivos. Com o tempo, a direção da instituição avaliou que a estrutura não era adequada para a realização das aulas, especialmente pelo piso de concreto e pela ausência de isolamento acústico. Ao concluir o Ensino Médio, ela passou a buscar um novo espaço para manter o projeto.
Com o apoio dos pais dos alunos e investimento próprio, encontrou uma sala em uma academia no bairro Camobi. O local tornou-se a sede definitiva do grupo, que permanece ali até hoje. “Como todos éramos de Camobi e não existiam outras companhias no bairro, surgiu o ‘Ritmo de Camobi’”, relembra Jéssica.
Da cena local ao reconhecimento internacional
Formalizada como companhia em 2013, a escola passou a ganhar espaço no cenário da dança regional, com foco no hip hop e nas danças urbanas. As coreografias desenvolvidas pelo grupo buscam ir além da execução técnica, criando narrativas que estimulam expressão, criatividade e senso coletivo entre os alunos.
Após boas classificações em festivais da região, o grupo decidiu dar um passo maior e, em 2018, participou pela primeira vez de um campeonato internacional. A classificação veio em uma etapa no Uruguai, garantindo a participação na Confederação Internacional da Dança, em Buenos Aires.
Em 2025, uma nova geração de alunos repetiu o feito. Após se classificar novamente no Uruguai, o grupo mobilizou a comunidade com rifas e eventos para viabilizar a viagem à Argentina. No festival, oito coreografias foram apresentadas e todas conquistaram o primeiro lugar em suas categorias. A companhia também recebeu o título de Melhor Companhia de Danças Urbanas do Campeonato.
Entre os representantes do grupo estava o professor e coreógrafo Raian Leal, de 23 anos. Integrante do Ritmo de Camobi como professor de danças urbanas, ele decidiu competir com um solo profissional. “É sobre deixar a música e o ritmo tomarem conta”, explica. A apresentação garantiu o primeiro lugar e o prêmio de Bailarino Revelação do festival.
Sob o ponto de vista de professor, Raian destaca a importância da disciplina no processo de formação e celebra a evolução das alunas ao longo dos ensaios: “Os ensaios podem ser cansativos, mas é gratificante vê-las no palco seguras e com qualidade”.
Junto à companhia Ritmo de Camobi, a instituição parceira Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Pedacinho de Céu (CEDUCA), também vivenciou a competição em solo internacional. Desde 2024, Jéssica já era professora de dança na escola, e a viagem do ano passado fortaleceu ainda mais a parceria. A diretora do CEDUCA, Adiles Cantarelli, destaca com entusiasmo a inserção da dança no cotidiano escolar. “Percebemos que, com o tempo, a dança modifica o comportamento das crianças. Elas ganham mais autonomia, perdem a timidez, e isso contribui significativamente para o desenvolvimento”, afirma.
Dança que transforma
Mais do que títulos, o Ritmo de Camobi defende a dança como ferramenta de transformação social. Inspirada pela própria experiência em projetos sociais, Jéssica mantém o compromisso de levar a dança a novos espaços.
Em 2024, ela participou da criação do projeto “Dança: a arte em prol da Educação e Cidadania”, selecionado em edital estadual. A iniciativa levou aulas de danças urbanas para estudantes da rede pública de Santa Maria, alcançando mais de 100 jovens entre 7 e 17 anos. Após seis meses de atividades semanais, o projeto foi encerrado com uma apresentação coletiva em dezembro daquele ano.
Mais do que formar bailarinos, o Ritmo de Camobi segue formando trajetórias. A companhia que nasceu do encontro entre dança e educação, hoje transforma realidades e mostra a potência da arte e do movimento.






