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Violência escolar: uma problemática que pede mudanças profundas

Como relações humanas, escuta qualificada e políticas públicas podem evitar a continuidade de tragédias dentro de instituições de ensino

No dia 10 de fevereiro, uma pequena cidade do nordeste da Colúmbia Britânica ficou em luto. Com pouco mais de dois mil habitantes, Tumbler Ridge foi palco de um fatídico crime: um ataque a tiros na única escola do município, o que resultou na morte de oito pessoas. A autora do ocorrido, Jesse Van Rootselaar, de apenas 18 anos, foi encontrada já sem vida dentro da instituição de ensino.

Isso é o que especialistas nomeiam como situação de violência extrema – aquela que invade o ambiente de convivência, ameaça o bem-estar social e gera consequências profundas, de médio e longo prazo. À primeira vista, episódios assim parecem restritos a realidades distantes. Entretanto, essa percepção é enganosa. A violência extrema nas escolas não é um fenômeno isolado nem restrito a um território específico.

No Brasil, episódios recentes revelam que a violência escolar nem sempre assume a forma de ataques armados, mas pode ser igualmente devastadora. Casos como o da estudante Alicia Valentina, em Belém do São Francisco, Pernambuco, morta após agressões dentro do ambiente escolar, expõem uma realidade marcada por omissões institucionais, negligência diante de sinais de sofrimento e dificuldade de atuação articulada entre escola, família e poder público.

Pensando no cenário de forma interseccional

Para a pesquisadora Cléo Garcia, integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (GEPEM), da Universidade Estadual de Campinas, compreender a violência nas escolas exige abandonar explicações simplistas. Segundo ela, trata-se de um fenômeno complexo e multicausal, influenciado por desigualdade social, tensões contemporâneas, uso intensivo das tecnologias digitais e amplificação de discursos de ódio, especialmente nas redes sociais.

A pesquisadora destaca que conflitos fazem parte da convivência escolar e devem ser trabalhados pedagogicamente. Já a violência extrema representa uma ruptura profunda com as normas de convivência e envolve a intenção de causar dano grave ou letal. “Isso não pode ser tratado como um simples conflito mal resolvido”, afirma. “Exige análise cuidadosa, prevenção qualificada e articulação com outras áreas, como segurança pública, saúde mental e políticas sociais.”

Uma dimensão central apontada pelas pesquisas do GEPEM é o fortalecimento dos vínculos e do sentimento de pertencimento. Processos de exclusão, humilhação e isolamento aparecem com frequência nos relatos de autores de ataques extremos, embora isso não signifique que todo jovem que vivencie essas experiências se tornará violento. A diferença, segundo Cléo, está na existência – ou não – de redes de apoio capazes de oferecer escuta, acolhimento e acompanhamento contínuo.

Santa Maria mobilizada em prol dos adultos do futuro

Em nível local, iniciativas voltadas à prevenção também buscam fortalecer essa rede de proteção. Em Santa Maria, o Programa Todos na Escola, da Secretaria de Município da Educação, atua no combate à evasão escolar e no enfrentamento das violências dentro do ambiente educacional. A pedagoga Bruna Zottis, integrante da equipe, explica que o trabalho envolve diferentes setores do poder público e busca garantir não apenas o acesso, mas também a permanência dos estudantes na escola.

Segundo ela, o programa atua em parceria com áreas como assistência social, segurança pública e órgãos de proteção à infância, além de investir na formação de profissionais da educação para lidar com situações de conflito e violência. “Não adianta apenas ouvir os relatos de violência. É preciso saber como encaminhar essas situações dentro da rede de proteção”, afirma.

Entre as iniciativas desenvolvidas, estão rodas de conversa com estudantes sobre violência de gênero, formação de professores e orientadores educacionais, além da implementação de núcleos de práticas restaurativas nas escolas – objetivo do grupo para esse próximo ano que se inicia. A proposta é criar espaços de diálogo e prevenção, capazes de identificar sinais de sofrimento antes que eles se agravem.

Para Bruna, a escola ocupa um papel central na construção de uma cultura de prevenção. Ela destaca: “não tem como falar em enfrentamento à violência sem pensar em educação. A prevenção passa pela formação das equipes, pela informação de qualidade para as famílias e pelo fortalecimento dos vínculos entre escola e comunidade”.

O caso ocorrido em Tumbler Ridge, no Canadá, assim como os episódios registrados no Brasil, evidencia que a violência escolar extrema não surge do nada. Ela é resultado de processos sociais acumulados, de falhas de comunicação e da ausência de políticas preventivas contínuas. Mais do que respostas punitivas ou medidas emergenciais, especialistas defendem a necessidade de uma transformação cultural, baseada no diálogo, no fortalecimento dos vínculos e na corresponsabilidade entre escola, família, comunidade e Estado.

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