Se, por um lado, o olfato é capaz de revelar estados emocionais antes mesmo que a mente os reconheça, por outro, ele também pode atuar de forma inversa: influenciando e reorganizando essas mesmas emoções.
Essa relação não é imediata para a maioria das pessoas. Estamos acostumados a pensar que aquilo que sentimos começa no pensamento, como se fosse possível controlar estados internos apenas por meio de decisões conscientes. No entanto, a experiência cotidiana mostra o contrário.
Há dias em que o ambiente parece mais pesado, a concentração diminui e a irritabilidade surge sem um motivo claro. Em outros, uma sensação de calma ou bem-estar se instala de forma inesperada, mesmo sem mudanças aparentes nas circunstâncias externas.
O que raramente é considerado é que o corpo responde continuamente aos estímulos ao seu redor — e que o olfato desempenha um papel central nesse processo.
Diferente de outros sentidos, o olfato mantém uma conexão direta com estruturas cerebrais ligadas à emoção, à memória e à regulação do sistema nervoso. Isso faz com que determinados cheiros não apenas sejam percebidos, mas atuem como estímulos capazes de alterar estados internos de forma rápida e silenciosa.
Um cheiro pode trazer conforto, gerar alerta, provocar aversão ou até induzir uma sensação de familiaridade. Não porque possui um significado universal, mas porque está associado a experiências previamente registradas pelo cérebro no decorrer do nosso desenvolvimento etário.
Nesse sentido, a resposta emocional não é construída apenas no presente — ela é ativada a partir de um repertório já existente. Repertório criado a partir dos nossos sentidos, sobretudo o olfato.
Isso explica por que determinados ambientes podem influenciar diretamente o humor, a disposição e até a forma como pensamos. Um espaço mal ventilado, com odores acumulados, pode gerar desconforto e aumentar a sensação de cansaço. Da mesma forma, ambientes com estímulos sensoriais mais equilibrados tendem a favorecer estados de maior estabilidade emocional.
Ainda assim, a tendência é buscar explicações exclusivamente cognitivas para essas variações, ignorando o papel do corpo e dos sentidos nesse processo algo que é totalmente sensorial. O resultado é uma tentativa constante de regular emoções apenas pela via racional — o que, na prática, nem sempre é suficiente. Vivemos em uma sociedade com fome sensorial onde sejam geradas conexões reais. E essas conexões que me refiro são as elétricas e internas, as que criam memórias e modulas as emoções e sentimentos – não se trata do sentido que, infelizmente, banalizou-se do termo “conexão”.
Isso não significa que cheiros, por si só, sejam capazes de “resolver” estados emocionais complexos. Mas indica que eles participam, de forma ativa, da forma como esses estados se organizam e consolidam em nossas estruturas internas.
Em contextos clínicos, torna-se possível observar que pequenos ajustes no ambiente sensorial podem contribuir para mudanças na forma como o corpo responde ao estresse, à ansiedade ou à sobrecarga. Não como solução isolada, mas como parte de um conjunto mais amplo de fatores que influenciam o equilíbrio emocional.
Essa perspectiva desloca o foco do controle para a percepção e sensação. Em vez de tentar modificar diretamente aquilo que se sente, passa a ser possível observar como o corpo está sendo constantemente influenciado pelo ambiente — e como essa influência pode ser, em alguma medida, ajustada.
Talvez o que muitas vezes interpretamos como instabilidade emocional não esteja apenas relacionado a pensamentos ou acontecimentos, mas também à forma como estamos sendo afetados, de maneira contínua, pelos estímulos ao nosso redor.
E, nesse contexto, o olfato deixa de ser apenas um sentido secundário.
Ele se torna parte ativa da forma como sentimos, reagimos e nos reorganizamos.
Porque, assim como pode revelar o que ainda não foi percebido, também pode influenciar aquilo que está em processo de mudança .
Aline Maliuk
Especialista em linguagem e inteligência olfativa
Psicoaromaterapeuta clínica e perfumista
Atua analisando e integrando olfato, ambiente e comportamento humano






