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O exercício Físico, faz mal para a saúde

Por Jea Bisogno – Educador físico e atleta

Estamos vivendo uma realidade de mudanças de hábitos e motivações. Pessoas que jamais pensariam em realizar uma atividade física hoje se transformam em atletas fora do horário de trabalho: os chamados atletas amadores.

Novos hábitos e rotinas vêm se tornando cada vez mais presentes na vida das pessoas. Academias lotadas, parques cheios, clubes movimentados e a saúde está no ar, será mesmo que está?

Em um primeiro olhar, a saúde parece sempre ocupar o primeiro lugar. Porém, com o passar do tempo, novos objetivos começam a ganhar prioridade e o cuidado com o corpo acaba ficando em segundo plano. Todos nós somos movidos por motivação: a caminhada vira corrida, a corrida vira o desafio dos 10 km, depois 21 km e, futuramente, uma maratona. A transição de uma pessoa sedentária para um atleta amador pode parecer inspiradora  e muitas vezes realmente é , mas surge uma pergunta importante: o corpo está preparado para suportar essa sobrecarga? A alimentação está adequada? O sono está em dia?

A busca por performance é saudável até o momento em que ela começa a custar a própria saúde. Muitos querem evoluir rápido demais, ignorando sinais de fadiga, dores persistentes e o desgaste mental que acompanha a rotina intensa de treinos. Estudos mostram que o desequilíbrio entre carga de treino e recuperação adequada pode levar ao chamado overtraining, condição associada à queda de desempenho, alterações hormonais, fadiga crônica e impactos psicológicos (KREHER; SCHWARTZ, 2012).

Outro ponto frequentemente negligenciado é o sono. Evidências científicas demonstram que períodos de sobrecarga em treinos de endurance estão diretamente relacionados à piora da qualidade do sono e da recuperação física (WALSHAW et al., 2024). Além disso, a privação de sono reduz significativamente o desempenho físico, afetando força, resistência e capacidade de recuperação (FULLAGAR et al., 2015).

Hoje, vivemos uma cultura em que relógios inteligentes, aplicativos e redes sociais transformam desempenho em comparação constante. Não basta mais treinar; é preciso bater metas, publicar resultados e superar o próprio limite o tempo inteiro. Mas o corpo humano não evolui na velocidade da ansiedade. Performance sem recuperação não é evolução é desgaste acumulado.

Dormir bem, descansar, se alimentar corretamente e respeitar períodos de recuperação não são sinais de fraqueza ou falta de comprometimento. Pelo contrário: são parte fundamental da construção de um desempenho sustentável. A literatura científica reforça que a adaptação física acontece justamente no equilíbrio entre estímulo e recuperação (BISHOP; JONES; WOODS, 2008).

Saúde e performance não deveriam competir entre si. A verdadeira evolução acontece quando ambas caminham juntas.

Talvez o maior desafio dos atletas amadores de hoje não seja completar uma prova ou levantar mais peso, mas aprender que nem toda superação exige ultrapassar os próprios limites diariamente. Porque, no fim, de nada adianta conquistar performance e perder a saúde no caminho.

Referências

BISHOP, David; JONES, Euan; WOODS, Alan K. Recovery from training: a brief review. Journal of Strength and Conditioning Research, v. 22, n. 3, p. 1015–1024, 2008.

FULLAGAR, Hugh H. K. et al. Sleep and athletic performance: the effects of sleep loss on exercise performance, and physiological and cognitive responses to exercise. Sports Medicine, v. 45, n. 2, p. 161–186, 2015.

KREHER, Jeffrey B.; SCHWARTZ, Jennifer B. Overtraining syndrome: a practical guide. Sports Health, v. 4, n. 2, p. 128–138, 2012.

WALSHAW, Ryan et al. Training load, sleep and recovery in endurance athletes: a systematic review. PLOS ONE, v. 19, n. 5, 2024.

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