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Amor . com

Quatro meses de bom dia. Quatro meses de boa noite. Quatro meses de boa sorte à distância. Uma fotinho despudorada pra lá, um videozinho comprometedor pra cá. Um rosto na tela, pinta de galã — desses que fazem baixar a guarda antes de terminar a primeira frase. Quando o perfil desapareceu, tinha ido junto, Pix a Pix, uma quantia que tinha nome, tinha suor, tinha sacrifício.
Nem deixou endereço.
Golpe do amor. Antigo na essência, novo na escala.
O Brasil está entre os países mais afetados por fraudes digitais no mundo. Não por acaso. Somos grandes usuários de redes sociais, de aplicativos de mensagem, de relacionamento online. Vivemos conectados. E conexão, sem discernimento, é vulnerabilidade.
O golpista digital não arromba porta. Não usa violência. A arma dele é outra — e é muito mais antiga que qualquer aplicativo. Chama-se engenharia social. A arte de manipular pessoas através da confiança.
Constrói uma persona com foto roubada, história cuidadosamente elaborada, videochamada sempre evitada com uma desculpa nova. Trabalha semanas, meses. Cultiva. Rega. Espera. Até que a confiança esteja instalada como uma planta dentro da casa.
Aí pede. Sempre com urgência. Sempre com uma razão comovente. A filha está doente. O negócio travou na alfândega. A passagem para voltar ao Brasil sumiu na última hora. Cada história menor que a anterior em criatividade, maior em apelo emocional. A primeira transferência abre caminho para a segunda. A segunda para a terceira. Cada uma maior. E a vítima vai — porque não está pagando um estranho. Está ajudando alguém que ama.
O bom e velho estelionato. Tecnologia de ponta a serviço da velha safadeza humana.
Engenharia social é isso: não hackear sistemas. Hackear pessoas. E o ser humano, nesse aspecto, não mudou. Continuamos tão vulneráveis à conversa certa, à história certa, ao rosto certo quanto éramos antes de qualquer tela existir. O que mudou foi a escala. O alcance. A velocidade. Um golpista do século passado conseguia enganar dezenas. O de hoje, milhares — sem sair do lugar.
A vítima perdeu dinheiro para um estranho. Só não sabia disso. Acreditava conhecer aquele rosto, aquela voz, aquela história. Quatro meses de mensagens constroem um mundo. Uma realidade inteiramente fabricada.
E quando esse mundo desmorona, o estrago não é só financeiro. O golpista foi embora — mas levou as imagens. Os vídeos. O que foi enviado em momento de intimidade, de confiança, de entrega. Material que pode virar moeda de extorsão. Ou simplesmente permanecer em mãos erradas para sempre.
Aí começa o segundo golpe. O silencioso.
A vergonha de contar para a família. O medo do julgamento. A certeza de que ninguém vai entender — ou pior, que vão entender e culpar. A vítima se cala. E no silêncio, o criminoso prospera. Quando finalmente decide procurar a polícia, descobre que ainda precisa se explicar, se justificar, provar que foi enganada. Em vez de acolhimento, encontra burocracia. Em vez de ser tratada como vítima, sente que está no banco dos réus.
Mas o digital deixa rastro. Sempre.
O perfil some, mas os dados da conta que recebeu as transferências existem. O número de WhatsApp tem origem rastreável. As conversas são evidência. O histórico bancário é documento. O que parece ter evaporado com o desaparecimento do golpista permanece — em servidores, registros, logs que a investigação correta sabe onde encontrar.
A cliente saiu do escritório diferente de como entrou. Ainda com o prejuízo. Mas com um caminho — registro, rastreamento, ação judicial, possibilidade real de responsabilização. O direito digital não é promessa. É ferramenta. Para quem sabe usá-la.
Bom dia, boa noite, boa sorte — por enquanto sorte só para ele.

Marcelo Arigony | Advogado

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