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A trajetória de coragem e recomeços de Elizandra Girardon

Depois de construir uma sólida carreira no sistema financeiro, decidiu transformar o sonho da advocacia em realidade

Algumas trajetórias não cabem em uma única definição. A de Elizandra é uma delas. Entre sonhos, desafios e conquistas, ela construiu uma história marcada pela coragem e pela persistência. Mulher batalhadora, inspira pela forma como transforma cada passo em um novo caminho.

Aos 48 anos, Elizandra Girardon decidiu que a vida é única e que o próprio destino é construído pelas escolhas que se tem coragem de fazer. Foi assim que decidiu realizar um antigo sonho. Para isso, precisou recomeçar.

Hoje, Elizandra Girardon é advogada, mãe da Kauane e também mãe “bichológica”, como costuma dizer com carinho. A família é o pilar essencial de sua vida e a base que sustenta cada uma de suas conquistas.

Caminho construído com esforço

Elizandra aprendeu cedo o significado da responsabilidade. Nascida em uma família humilde em Tupanciretã — localidade que hoje pertence ao município de Jari — começou a trabalhar ainda na infância, por volta dos 12 anos, para ajudar a mãe a sustentar os irmãos. A primogênita entre três filhos, assumiu desde muito jovem o compromisso de contribuir com a família. Desde então, o trabalho passou a fazer parte constante de sua rotina.

Na adolescência, novas oportunidades surgiram. Aos 17 anos, passou a trabalhar como babá e, pouco tempo depois, conseguiu vaga em uma loja de Santa Maria, cidade para onde se mudou em 1994. A experiência profissional foi crescendo junto com a vontade de continuar estudando e avançar. “Eu continuei trabalhando, sempre trabalhando, mas também sempre com aquele sonho de fazer faculdade”, relembra Elizandra.

A virada veio quando ingressou em uma instituição financeira, onde permaneceu por duas décadas. Nesse período surgiram as condições para investir na formação acadêmica. No entanto, para atuar na área, era necessário cursar graduações ligadas à gestão ou contabilidade. Por isso, iniciou os estudos em Ciências Contábeis, chegando a cursar alguns semestres. Em seguida, formou-se em Administração e voltou novamente aos estudos em Contábeis. 

Mas havia um sonho que permanecia guardado desde cedo. Aos 31 anos, decidiu finalmente realizá-lo: ingressar no curso de Direito, dando início a uma nova etapa em sua trajetória.

A coragem de recomeçar

O desejo de seguir a carreira jurídica surgiu na adolescência, na época em que a mãe morava em frente a delegacia de polícia. Entre pessoas que chegavam e saíam, nasceu a vontade de fazer parte daquele universo. O sonho, no entanto, levou algum tempo para se concretizar.  

Em 2013, com uma carreira já consolidada na instituição financeira onde atuava, e quase concluindo a graduação em Direito, Elizandra decidiu prestar o Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mais por curiosidade do que por planejamento profissional. Para sua surpresa, foi aprovada. “Eu pensei: agora que passei, vou fazer um cursinho de 30 dias e tentar a segunda fase. Mas achava muito pouco provável que passasse”, recorda. Ainda assim, passou novamente e conquistou a carteira da OAB.

No ano seguinte, em 2014, concluiu a graduação em Direito, abrindo oficialmente as portas para a profissão que havia sonhado desde a juventude. Mesmo assim, naquele momento, não tinha a intenção de deixar a carreira no setor financeiro. Com o tempo, porém, a vida foi conduzindo Elizandra, naturalmente, em direção ao seu destino.  

“As pessoas me olhavam e falavam que tinha perfil para ser advogada”

Durante anos, Elizandra cogitava cancelar o registro na OAB. Como não atuava na área naquele momento, pagava a anuidade sem exercer a profissão. A ideia de pedir o cancelamento surgia com frequência, mas, curiosamente, o prazo sempre passava. Foi então que uma conversa com a filha trouxe uma nova perspectiva. “Um dia minha filha me disse: ‘Mãe, acho que isso é um sinal. Se tu sempre perde o prazo, talvez seja porque, no fundo, tu não quer cancelar. Tu quer advogar’”, relembra.

A observação ficou. Em vez de desistir, Elizandra decidiu transformar a reflexão em decisão. “Eu pensei: é verdade. Não vou cancelar. Vou fazer ela se pagar”. Mas a decisão de mudar de rumo veio oito anos mais tarde, provocada pela pandemia de Covid-19. Foi então que começou a planejar o recomeço. Durante dois anos, organizou a vida financeira para dar o próximo passo. Em 2022, começou a advogar. 

“Eu preciso exercer essa profissão. Eu amo a advocacia”

Da noite escura da alma ao sol loiro

Logo após deixar a instituição financeira, chegou a ingressar em uma sociedade profissional. A experiência, no entanto, durou pouco mais de dois meses e deu lugar ao seu lado empreendedor. Foi nesse período que viveu o que define como ‘a noite escura da alma’, marcada por dúvidas, inseguranças e o medo diante de novos desafios. A chegada das primeiras audiências trouxe ainda mais apreensão. “Eu pensava: nunca fiz uma audiência e já tenho uma marcada… como é que eu vou fazer isso?”, recorda.
A resposta veio com estudo e persistência. Elizandra passou a buscar conhecimento em cursos, aulas e conteúdos online sobre prática jurídica. Assistiu à lives, participou de mentorias e mergulhou no aprendizado sobre audiências. Aos poucos, o que antes parecia assustador começou a ganhar forma.
Assim, Elizandra encarou sua primeira audiência, um caso de Direito de Família. E a experiência final foi positiva. “Foi maravilhosa. Eu conhecia o contexto, sabia o que perguntar. Tudo fluiu muito bem”, conta a advogada. O resultado da ação, favorável à cliente, marcou definitivamente aquele início de trajetória. A partir dali, a insegurança deu lugar à confiança. “Depois da primeira audiência, eu me senti muito mais forte. Hoje, quando surge uma, eu mesma digo: deixa que eu vou”, diz, entre sorrisos.

Às vezes o teu maior medo é a tua maior potência”

No fim das contas, todo o caminho valeu a pena. Além do conhecimento técnico, vieram os aprendizados adquiridos com as experiências ao longo da jornada, as conexões construídas e o próprio processo de autoconhecimento. Hoje, diz ter um propósito claro na profissão. “Quero sempre fazer o melhor para os meus clientes. Vou estudar, vou buscar, vou me preparar cada vez mais”, afirma.
Atualmente, Elizandra segue investindo na própria formação. A advogada cursa três especializações na área do Direito, com foco em direito bancário, defesa do executado e execuções rurais, incluindo temas como prorrogação e alongamento de dívidas. 

Advocacia e crédito rural

A experiência acumulada ao longo de mais de duas décadas em instituição financeira se tornou uma das principais ferramentas de trabalho de Elizandra na advocacia. Durante 24 anos no setor, teve contato direto com a realidade de empresas e, principalmente, com o funcionamento do agronegócio. Esse conhecimento, aliado à formação acadêmica, permite à advogada analisar com mais propriedade a realidade de produtores rurais e empresas.
Grande parte das demandas que chegam ao escritório estão relacionadas à prorrogação e alongamento de dívidas, revisão de operações de crédito e cobranças consideradas abusivas por instituições financeiras. Segundo Elizandra, muitos produtores acabam assumindo contratos sem conhecer as normas que regulam o crédito rural. Diferente de operações comerciais comuns, o financiamento agrícola possui legislação própria e mecanismos de proteção ao produtor. Entre eles estão normas previstas no Manual de Crédito Rural e garantias constitucionais, como a impenhorabilidade da pequena propriedade. “O agro tem uma função social essencial de garantir a segurança alimentar. Por isso existe uma legislação específica que protege o produtor em determinadas situações”, afirma.
Diante da complexidade, Elizandra destaca a importância de buscar orientação jurídica especializada. O ideal é que o produtor rural procure ter uma consultoria antes mesmo de assumir compromissos financeiros. Nesses casos o advogado atua como aliado estratégico, analisando contratos e auxiliando na tomada de decisões antes da assinatura de financiamentos ou da compra de insumos.
Além de produtores rurais, Elizandra atende servidores públicos, aposentados, empresários e trabalhadores da iniciativa privada. Muitas das ações envolvem casos de superendividamento, fraudes em empréstimos consignados, golpes financeiros ou revisões de contratos bancários.
Apesar das dificuldades enfrentadas por produtores e trabalhadores endividados, sempre existem caminhos para reorganizar a vida financeira. “Com orientação e informação, é possível renegociar dívidas e buscar soluções justas sem precisar perder o patrimônio”, afirma a advogada. E complementa: “Eu quero ajudar as pessoas a resgatar a dignidade”.
Entre os projetos para o futuro está a ampliação do escritório e o crescimento da equipe. A meta, segundo ela, é ambiciosa, mas deseja que mais pessoas possam se beneficiar do trabalho desenvolvido.

Os valores que sustentam a caminhada

Elizandra engravidou ainda muito jovem, aos 18 anos, e assumiu sozinha a responsabilidade de criar a filha, Kauane. Para ela, a maternidade se tornou um dos grandes motores de sua trajetória. “Eu sempre digo que ela foi uma ferramenta que Deus usou na minha vida. Eu tive que correr atrás, porque era eu por mim e por ela”, conta. Ao longo dos anos, Kauane se tornou sua maior força. Hoje, mãe e filha seguem próximas dentro e fora do trabalho.

“Minha filha significa tudo. Significa o amor incondicional, significa esperança, significa motivação”

A fé também ocupa um lugar central em sua vida. É ela que, segundo a advogada, ajuda a manter os pés no chão mesmo diante de desafios e conquistas. Mas para Elizandra, a fé vai além da religião. Está diretamente ligada ao propósito que busca cumprir: “a vontade de fazer diferença na vida das pessoas”, resume.
Fora do ambiente profissional, Elizandra leva uma rotina tranquila e reservada. O tempo livre é dedicado à família, aos pets, momentos de reflexão e autocuidado. A advogada pratica corrida e crossfit, atividades que ajudam a organizar seus pensamentos e renovar energias. “É correndo que muitas ideias surgem”, conta.
Leitora assídua, mantém o hábito de buscar conhecimento constante. “Eu gosto de parar, refletir sobre a vida, praticar a gratidão. Quando a gente aprende a agradecer, mais coisas boas começam a chegar”, diz. Parte dessa mudança de perspectiva veio a partir de mentorias e cursos voltados ao autoconhecimento. Esses processos contribuíram para transformar sua forma de enxergar a vida e a carreira. “Foi quando comecei a trabalhar mais a minha mentalidade, perder alguns medos e entender que precisava agir com mais coragem”, explica.
Hoje, ao olhar para trás, Elizandra se emociona ao lembrar da menina que, ainda criança, sentava na porteira de casa para ver o ônibus passar na estrada do interior. Naquele momento, mesmo sem saber exatamente como, ela já tinha a sensação de que o mundo era maior do que aquele horizonte — e que seu caminho também iria além dele.

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