Aromaterapia corporativa e perfumaria clínica passam a integrar programas de promoção de saúde mental e gestão de riscos psicossociais nas empresas
Há dias que começam antes mesmo de amanhecer. O sono não foi suficiente, a mente não desacelerou, e o corpo já desperta em alerta. Ao longo das horas, a concentração falha nos detalhes mais simples, a irritação surge sem aviso. Nem as pausas durante a semana, nem o fim de semana são capazes de restaurar a energia. É assim que se constrói o cansaço crônico que muitas empresas ainda não percebem. Ele começa na dificuldade de desligar, no sono fragmentado, na tensão que se acumula todos os dias. Começa no ambiente e, pouco a pouco, se instala no corpo.
Ao observar, no consultório, a recorrência desse cenário entre seus pacientes, a psicoaromaterapeuta clínica Aline Maliuk percebeu que ansiedade, insônia e esgotamento frequentemente tinham um ponto em comum: o ambiente de trabalho. Especialista em inteligência olfativa, campo que articula ciência, comportamento e percepção sensorial, ela decidiu ampliar sua atuação para além do atendimento individual e passou a desenvolver projetos voltados também ao ambiente corporativo. A proposta é compreender como o ambiente influencia o estado emocional das pessoas e como estímulos sensoriais podem contribuir para equilibrar esse cenário.
Organizações são formadas por pessoas e, para Aline, ignorar a relação entre indivíduo e ambiente é um erro recorrente na gestão. Nesse contexto, o perfume deixa de ser apenas estética e assume função estratégica. “Ele pode ser ferramenta terapêutica, ferramenta no processo de ensino-aprendizagem e também de posicionamento. Antes mesmo de um ‘bom dia’, o aroma já está comunicando”, comenta a perfumista.
O olfato é o único dos cinco sentidos que não passa por um filtro racional antes de atingir o sistema límbico, região do cérebro ligada às emoções e à memória. Isso significa que os estímulos olfativos provocam respostas diretas no organismo. Quando utilizados ativos naturais com propriedades terapêuticas, como óleos essenciais, é possível estimular neurotransmissores associados ao bem-estar, modular níveis de cortisol (hormônio relacionado ao estresse) e favorecer estados de foco e concentração.
“Não é algo místico. É neurociência aplicada ao ambiente.”
Esse movimento ganha ainda mais relevância com a atualização da NR-1, norma do Ministério do Trabalho e Emprego que passou a exigir das empresas a gestão de riscos psicossociais no ambiente corporativo. Criada em 1978 e recentemente atualizada, a normativa determina que o foco esteja nas condições oferecidas pela organização, e não apenas no indivíduo. Cabe às empresas mapear fatores como assédio, comunicação violenta, sobrecarga e outros elementos que impactam diretamente a saúde mental dos trabalhadores.
Da avaliação à ação
O trabalho desenvolvido por Aline nas empresas começa com um diagnóstico do ambiente organizacional. A avaliação é realizada por setor, de forma anônima, e tem como objetivo mapear os riscos psicossociais existentes. A partir das respostas, são elaborados gráficos e uma análise técnica que identifica os pontos de maior vulnerabilidade dentro da organização. O relatório é entregue à empresa para ser integrado ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
No entanto, o diagnóstico, por si só, não é suficiente para atender à normativa. A legislação prevê que as organizações implementem ações contínuas para reduzir ou mitigar esses fatores de risco. É nesse ponto que entram os programas de promoção de saúde mental no ambiente de trabalho, dentro dos quais a aromaterapia corporativa e a perfumaria clínica podem atuar como ferramentas complementares às estratégias de intervenção coletiva.
Utilizadas de forma planejada, elas contribuem para reduzir fatores como estresse, ansiedade e impactos da privação do sono — condições que interferem diretamente no desempenho e no clima organizacional. Cada fator identificado passa a ser trabalhado dentro de um cronograma estruturado de intervenções, alinhado aos preceitos da normativa e integrando educação sensorial, psicoeducação, estratégias de autocuidado e estímulos olfativos direcionados.
A especialista reforça que não se trata de uma prática abstrata. “O olfato atua no sistema nervoso. Temos o sistema simpático, ligado ao estado de alerta, e o parassimpático, associado ao relaxamento. A ativação acontece pela respiração. Óleos essenciais, por exemplo, atuam como um estímulo capaz de modular respostas fisiológicas reais”, explica Aline.
Embora o adoecimento não esteja restrito ao ambiente de trabalho, a proposta é agir sobre aquilo que pode ser transformado dentro da organização, tornando o espaço profissional um agente de promoção — e não de desgaste — da saúde mental.








