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O MAIOR ERRO DAS ORGANIZAÇÕES NÃO ESTÁ NAS DECISÕES — ESTÁ ANTES DELAS

As organizações acreditam que tomam decisões todos os dias.

Reuniões são feitas para decidir. Relatórios são produzidos para decidir. Indicadores são acompanhados para decidir.

Mas há um ponto raramente questionado: e se as decisões mais importantes já estiverem sendo tomadas antes mesmo de alguém perceber que está decidindo?

Essa hipótese desloca completamente o problema.

Porque, nesse caso, não estamos falando de decisões melhores ou piores.
Estamos falando de algo mais profundo: a formação invisível das decisões.

No imaginário organizacional, decidir ainda é tratado como um ato pontual. Um momento. Um evento. Algo que acontece quando alguém escolhe entre alternativas.

Mas essa é apenas a parte visível.

Antes de qualquer decisão formal, algo já aconteceu:

  • um problema foi definido (ou aceito sem questionamento) 
  • certos dados foram considerados relevantes, enquanto outros foram ignorados 
  • determinadas possibilidades foram sequer cogitadas 
  • premissas foram assumidas como verdadeiras 

Nesse ponto, a decisão já começou.

E, muitas vezes, já terminou.

Essa lógica não se restringe às organizações.

Ela atravessa a vida cotidiana de forma silenciosa.

Quando alguém diz “preciso mudar de vida”, por exemplo, essa frase já carrega decisões implícitas: o que é considerado insatisfatório, o que é visto como possível mudança, o que nem sequer é imaginado como alternativa.

Quando escolhemos permanecer em um trabalho, iniciar uma conversa, adiar uma escolha importante ou até ignorar um incômodo recorrente, há decisões acontecendo — ainda que não sejam percebidas como tal.

No dia a dia, chamamos de decisão apenas os momentos explícitos: aceitar ou recusar, comprar ou não comprar, ir ou não ir.

Mas a maior parte das escolhas que moldam a vida acontece antes disso, em um plano menos visível:

  • no que prestamos atenção 
  • no que deixamos de questionar 
  • no que consideramos “normal” 
  • no que sequer entra no nosso campo de percepção 

É nesse território que a decisão se forma.

E, assim como nas organizações, é nesse território que ela se torna mais difícil de ser percebida.

O que chamamos de “decisão” — a aprovação, o voto, o consenso — é apenas a etapa final de um processo que se desenvolveu silenciosamente.

Isso ajuda a explicar por que, tanto na vida quanto nas empresas, há uma sensação recorrente:

  • decisões tecnicamente corretas, mas estrategicamente limitadas 
  • escolhas que parecem novas, mas reproduzem padrões antigos 
  • esforço consistente sem avanço proporcional 
  • uma percepção difusa de que “algo não está errado, mas também não está certo” 

Não se trata, necessariamente, de falta de capacidade.

Trata-se, sobretudo, de limites de percepção.

Existe um campo invisível operando — dentro das organizações e dentro de cada um de nós.

Um campo onde se definem, sem alarde:

  • o que é visto como problema 
  • o que merece atenção 
  • o que é considerado viável 
  • o que sequer entra na conversa 

Esse campo não aparece em organogramas.

Não está nos dashboards.

Mas também não aparece na rotina pessoal, nos hábitos ou nas narrativas que contamos a nós mesmos.

Ainda assim, orienta tudo.

Quando esse campo não é percebido, passamos a operar dentro de limites que nós mesmos criamos — sem saber.

E então surge a ilusão mais perigosa: a de que estamos decidindo livremente, quando na verdade estamos apenas executando decisões que nunca percebemos que foram tomadas.

Na vida pessoal, isso se manifesta como repetição de padrões.

Nas organizações, como repetição estratégica.

Em ambos os casos, há movimento — mas não há avanço real.

É por isso que melhorar o processo decisório, por si só, não resolve.

Mais dados não resolvem.

Mais tecnologia não resolve.

Mais reuniões não resolvem.

Da mesma forma, na vida pessoal:

mais informação não resolve,

mais planejamento não resolve,

mais esforço não resolve.

Nada disso altera o ponto onde a decisão realmente começa.

O que se torna necessário é um deslocamento mais sutil — e mais exigente:

desenvolver a capacidade de perceber onde as decisões estão sendo formadas.

Antes do debate.

Antes da análise.

Antes da escolha.

Isso implica observar com mais atenção:

  • quais perguntas não estão sendo feitas 
  • quais premissas estão sendo aceitas automaticamente 
  • quais possibilidades sequer estão sendo consideradas 
  • quais padrões estão sendo repetidos sem consciência 

Esse movimento altera, de forma significativa, o papel da liderança — e também a forma como cada indivíduo se posiciona diante da própria vida.

O líder deixa de ser apenas aquele que decide melhor.

E passa a ser aquele que organiza o campo onde as decisões emergem.

Da mesma forma, o indivíduo deixa de ser apenas alguém que reage às circunstâncias.
E passa a perceber como participa da construção do próprio contexto.

Isso não é um movimento operacional.

É um movimento de consciência.

No limite, a questão não é “como decidir melhor”.

A questão é:

de onde, exatamente, nossas decisões estão surgindo?

Porque o maior erro das organizações — e, em alguma medida, também o maior erro individual — não está nas decisões que tomam.

Está nas decisões que já foram tomadas…

sem que ninguém tenha percebido.

JOAQUIM DORNELES
Arquitetura de Inteligência Sistêmica Adaptativa
Hub Ecoevolutivo de Inteligência e Expansão Organizacional

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