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Quando uma ideia ganha cheiro

O perfumista é um tradutor diferenciado – traduz pessoas, ambientes, histórias e intenções em uma linguagem que não precisa de palavras para ser percebida.

Nem todo perfume começa pelo cheiro

Quando pensamos em perfumista, é comum imaginar alguém diante de inúmeros frascos, experimentando matérias-primas e procurando uma combinação agradável. Mas, para mim, o perfume começa antes.

Começa em uma pergunta, em uma intenção, em uma história ou em algo que se deseja expressar.

Pode ser uma pessoa que quer encontrar uma fragrância que tenha coerência com quem é. Uma marca que deseja construir uma identidade. Um ambiente que precisa transmitir determinada atmosfera. Uma celebração que quer permanecer na memória.

Em todos esses casos, existe algo que ainda não tem cheiro.

E é aí que começa o trabalho do perfumista.

Perfume também é tradução

Se a linguagem é uma forma de expressar aquilo que pensamos, sentimos ou desejamos comunicar, o perfume pode ser entendido como uma forma de tradução. Não uma tradução literal. Uma tradução sensívele silenciosa.

Traduzir uma pessoa para o olfato não significa procurar simplesmente um aroma de que ela goste. Significa compreender sua história, seus hábitos, sua maneira de se apresentar, suas escolhas e aquilo que deseja expressar. Traduzir um ambiente também vai muito além de escolher um cheiro agradável.

É perceber o espaço, sua arquitetura, sua função, as pessoas que o frequentam, a atmosfera que se deseja construir e a experiência que se pretende proporcionar.

O perfume nasce quando tudo isso encontra uma composição olfativa capaz de representar aquela intenção. E talvez não seja por acaso que per, do latim, carregue a ideia de “através de”. O perfume atravessa pessoas, ambientes, histórias e intenções até chegar à percepção.

Mas o que exatamente estamos traduzindo?

Talvez essa seja uma das partes mais interessantes da perfumaria.

Porque não existe apenas uma matéria-prima sendo escolhida.

Existe um contexto.

Existe uma pessoa.

Existe um ambiente.

Existe uma história.

Existe um objetivo.

E existe a percepção de quem irá receber e usar aquela fragrância.

Por isso, duas pessoas podem gostar da mesma matéria-prima e, ainda assim, precisarem de perfumes completamente diferentes.

Da mesma maneira, dois ambientes podem receber uma fragrância agradável e, mesmo assim, apenas um deles ter encontrado uma composição realmente coerente com aquilo que deseja expressar.

O perfume não deve apenas combinar com o que existe. Ele precisa fazer sentido dentro daquele contexto pré-existente.

A fórmula é apenas uma parte da criação

A técnica é indispensável.

Um perfumista precisa conhecer matérias-primas, estruturas, proporções, concentrações, combinações e tantas outras variáveis que fazem parte da construção de uma fragrância.

Mas a técnica, sozinha, não responde a uma pergunta fundamental: o que essa fragrância precisa dizer?

É nesse espaço entre o conhecimento técnico e a interpretação que a criação acontece.

É preciso ouvir antes de formular.

Observar antes de escolher.

Compreender antes de combinar.

Relacionar antes de executar

E, muitas vezes, perceber aquilo que nem sequer foi dito. Afinal um bom perfumista muito além da técnica necessita ter uma personalidade que harmonize  muita sensibilidade e criatividade.

Uma linguagem que não precisa de palavras

O olfato tem uma particularidade: ele pode nos alcançar antes que tenhamos tempo de explicar racionalmente o que estamos percebendo.

Um aroma pode nos remeter a uma pessoa, a uma casa, a uma viagem, a uma época da vida.

Pode fazer um ambiente parecer mais acolhedor, mais sofisticado, mais leve ou simplesmente mais coerente com aquilo que ele deseja ser.

Isso não significa que um determinado aroma produza a mesma reação em todas as pessoas.

Nossa relação com os cheiros é atravessada por experiências, memórias, cultura e contexto.

E justamente por isso a criação olfativa é tão interessante.

Não estamos apenas compondo um cheiro.

Estamos criando uma possibilidade de experiência.

É aqui que entra o perfumista

Talvez seja por isso que eu goste de pensar no perfumista não apenas como alguém que cria perfumes, mas como alguém que traduz.

Traduz o que uma pessoa quer expressar.

Traduz a atmosfera que um ambiente deseja construir.

Traduz a identidade que uma marca quer tornar perceptível.

Traduz uma história que, muitas vezes, não caberia em palavras.

E essa tradução precisa ser coerente.

Porque um perfume pode ser bonito, sofisticado, agradável e tecnicamente muito bem construído — e ainda assim não ser o perfume certo para aquela pessoa, aquele ambiente ou aquela intenção.

Criar não é apenas fazer algo bom.

É fazer algo que faça sentido.

Celebrar também é compreender

O Dia do Perfumista, celebrado em 21 de setembro, pode ser uma oportunidade para olhar para essa profissão por uma perspectiva diferente.

Mais do que celebrar quem trabalha com fragrâncias, podemos reconhecer o trabalho de quem transforma o invisível em algo que pode ser percebido.

Uma intenção que ganha forma.

Uma identidade que ganha presença.

Um ambiente que ganha expressão.

Uma história que encontra um cheiro.

Momentos que ganham lembranças indeléveis.

No fim, talvez o perfume seja justamente isso: uma tradução que não precisa ser lida. Ela é percebida.

E, quando essa tradução é coerente, talvez nem seja necessário explicar.

A pessoa simplesmente sente.

Aline Maliuk
Perfumista e Psicoaromaterapeuta Clínica
Especialista em Inteligência Olfativa | Designer de Fragrâncias
Integra olfato, ambiente e comportamento humano em sua atuação. 

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